Adesão à IA é inevitável na construção, defendem especialistas

A adoção de ferramentas com base em IA (inteligência artificial) na construção é um caminho sem volta —e ignorá-la pode mesmo custar competitividade ao setor. A avaliação foi feita por especialistas da academia e do setor privado durante painel no Encontro Internacional da Indústria da Construção (ENIC) 2026, realizado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) nesta quarta-feira (20), em São Paulo. O evento acontece no Distrito Anhembi até 21 de maio.

Para Celso Camilo, cientista pioneiro em IA no Brasil e cofundador do CEIA (Centro de Excelência em IA), vinculado à UFG (Universidade Federal do Goiás), o ponto de inflexão sobre a computação inteligente já passou. “A IA é a última invenção sem IA”, disse o especialista, e todas as tecnologias que virem a seguir já serão, de alguma forma, concebidas, testadas ou aceleradas por sistemas inteligentes — em todos os campos do mercado.

O especialista também alertou sobre quem minimiza o impacto da inteligência artificial nas cadeias produtivas. “[Para] Cada um que tiro da cadeia [de produção], [sobra] mais margem para quem fica”, diz. “Só perde quem sai.”

Para defender sua argumentação, Camilo partiu de um conceito que denomina “tecnosapiens”. Segundo o professor da UFG, o ser humano (o tal tecnosapiens), diferente dos demais animais, adapta o ambiente a si e projeta sua limitação em ferramentas. Desta forma, a IA seria mais um passo nesse permanente ciclo histórico de projeção, que remonta a outras transformações do passado, como a Revolução Industrial nos séculos XVIII e XIX e a Digital no século XX e no início do XXI.

O ENIC é uma realização da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e Correalização do Sesi e Senai; conta com o Apoio Institucional da EMBRAPII; Patrocínio Oficial da CAIXA e Governo do Brasil, onde tem patrocínio CAIXA, tem Governo do Brasil; Patrocínio Institucional da CNI e IEL e do CAU/BR; Patrocínio Hub de Tecnologia da Schneider Eletric e Steck; Patrocínio Hub de Inovação do Sebrae; Patrocínio Naming room de Tecnologia da ABDI; Patrocínio Ouro da ApexBrasil, Saint-Gobain, Paggo, Brain e Kata; Patrocínio Prata da Agilean, AltoQi, Atlas Schindler, Esaf, Konstroi, Senior, Sienge, Cofer, Confea Crea – SP e da Mútua; Patrocínio Bronze da TOTVS, Zigurat, Exxata, Fastbuilt, Falconi, Sinaenco, Sinicon, além do Patrocínio Visibilidade da Trimble.

IA como parceira do planejador

O especialista do CEIA também identificou três vetores que, historicamente, motivaram a adoção de novas tecnologias: velocidade, custo e qualidade. O mais rápido e o mais barato chegaram primeiro. O “eventualmente melhor” veio depois. Com a IA, ele argumentou, os três vetores convergiram ao mesmo tempo, e em escala sem precedente.

“Inovação não pede licença. Para algo ser disruptivo, precisa romper com o status quo. Toda inovação, em certa medida, precisa estender a borda [do conhecimento]”, disse o especialista, que também alertou gestores e empresários que reconhecem o potencial transformador da tecnologia, mas recuam diante do desconforto de implementação. “Não dá para tampar imaturidade com ferramenta”, justificou.

A Afry, empresa sueca de engenharia, design e consultoria, incorporou a IA em um modelo em que humano e máquina dividem funções sem sobreposições — o que traz um exemplo mais solidificado da visão de Camilo. Na ferramenta desenvolvida pela companhia, o planejador humano ainda é responsável por montar o cronograma da construção; a IA, em paralelo, simula cenários e sequenciamentos a partir desse plano.

“O que antes demorava uma semana para o planejador agora se encerra em duas horas”, explicou o diretor de desenvolvimento de negócios da Afry, Túlio Duarte Faria. “A IA é utilizada para gerar cenários em cima do planejamento, em vez de gastar mais tempo analisando cada um deles para montar os cronogramas.”

Para ilustrar a aplicação, Túlio trouxe um estudo de caso de uma mina de níquel e cobalto no Nordeste, com projeto de 90 mil m³, em que havia múltiplos desafios: escassez de água em razão do clima seco da região, limite de mão de obra direta e restrição de espaço para montagem de equipamentos.

Evolução da categoria

Aplicada em fase posterior do planejamento, a IA gerou sete cenários para avaliar a viabilidade do prazo de construção, entre eles três com diferentes limites de equipe: um com mil trabalhadores, outro com 1,2 mil e um último sem restrição. O resultado indicou que o cenário mais enxuto oferecia maior produtividade e menor custo.

“[Com essa decisão] Tivemos ganhos indiretos muito bons: redução de 24% no risco para a mão de obra, queda de 33% em tempo ocioso de equipamentos e diminuição de 9% na ociosidade da mão de obra direta”, justificou.

Túlio ressalvou, porém, que os resultados ainda dependem diretamente do conhecimento técnico do planejador. A IA não substitui o julgamento humano; em vez disso, comprimiu o tempo de análise. O que antes exigia uma semana de trabalho para calcular a viabilidade de um cronograma passa a ser resolvido em duas horas, liberando o gestor para tomar decisões com mais informação e menos espera.

A fala de Marcos Mauro, vice-presidente da CBIC para a região Sul, jogou luz sobre outro ângulo do debate: o mercado de trabalho. Para ele, a escassez de mão de obra na construção já é uma realidade estrutural. “Nos últimos 40 anos, o Brasil evoluiu em termos de escolaridade. A construção civil já foi a porta de entrada do sujeito para o mercado de trabalho, mas hoje é diferente, as pessoas escolhem outros setores”, afirmou.

O setor, segundo Mauro, também precisará trocar o perfil do trabalhador braçal pelo do profissional técnico. “Não vamos ter mais um pedreiro e sim talvez um analista de dados em revestimento. Nosso setor precisa de capacitação e não qualificação.”

Preservar o meio ambiente é investir em um futuro melhor para as próximas gerações.

O tema tem interface com o projeto “Cultura da Gestão Compartilhada”, da Comissão de Obras Industriais e Corporativas (COIC) da CBIC, em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

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