A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) inicia, nesta quarta-feira (1º), uma nova fase de sua atuação institucional com o início da gestão 2026-2029. Liderado pelo empresário Eduardo Aroeira Almeida, até então vice-presidente financeiro da entidade, o mandato acontece em momento desafiador para o setor, marcado pela implementação da reforma tributária, a necessidade de escalar a produtividade e reverter a escassez de mão de obra, e o avanço das políticas habitacionais e de infraestrutura.
Nascido no Distrito Federal e engenheiro civil, Aroeira Almeida tem uma trajetória consolidada no associativismo da construção. É sócio-diretor da Apex Engenharia e preside o Serviço Social da Indústria da Construção do Distrito Federal (Seconci-DF). Também foi presidente da Associação de Empresas do Mercado Imobiliário do Distrito Federal (ADEMI DF) por dois mandatos consecutivos.
Ele assume a presidência da CBIC disposto a dar continuidade às pautas estratégicas da entidade e fortalecer o diálogo institucional em defesa da indústria da construção, com vistas a produzir avanços. Em entrevista exclusiva ao, Eduardo Aroeira Almeida fala sobre as prioridades da nova gestão, os desafios econômicos e regulatórios do setor, o acesso ao crédito, a escassez da mão de obra, a industrialização da construção e as perspectivas para os próximos três anos. Leia os principais trechos:
O senhor tem longa trajetória no associativismo da construção e já colaborava com a alta direção da CBIC em mandatos anteriores. Como recebeu a indicação do seu nome e formou a diretoria que o acompanha?
Este convite foi uma grande honra para mim e carrega desafios muito grandes, não apenas pelo cenário do nosso setor, como pela importância de suceder ao Renato Correia e José Carlos Martins, líderes com quem eu tive o prazer de trabalhar e que me ensinaram muito. Mais que isso, são líderes que fizeram da CBIC a representação que é hoje e contribuíram para a expansão e o fortalecimento da construção brasileira, avançando com um projeto iniciado em 1957. Ser eleito presidente da CBIC, em uma transição sem disputa interna e por aclamação, me honra e alegra muito.
A diretoria que assume comigo foi construída com uma visão de renovação e consolidação da nossa representação regional. A presença em todo o Brasil é uma marca registrada da CBIC e fator essencial da sua importância, da qualidade do seu trabalho e dos resultados que nossa entidade gera para o setor. O colegiado deste mandato traz mudanças pontuais, respeitando a atuação de profissionais cuja contribuição é emblemática para a construção brasileira e cujo legado seguirá conosco.
Quais as prioridades da CBIC nesta nova gestão?
Nossa gestão será de continuidade e busca por avanços. A CBIC tem atuado junto ao poder público para fomentar uma melhoria no ambiente de negócios e na segurança jurídica, de forma a criar as condições para a manutenção do investimento nos diversos segmentos da construção. Manter e estimular a atividade do nosso setor é essencial para a geração de emprego e renda, assim como para garantir qualidade de vida para a população seja pelo provimento da moradia, seja pela melhoria da infraestrutura nas cidades. Dentre nossas prioridades, está o avanço na industrialização do setor, na pauta de inovação e absorção de novas tecnologias, na melhoria do acesso ao financiamento para o mercado imobiliário, na capacitação da nossa mão de obra dentre outros temas que são estratégicos para o tomador de decisão. Vamos atuar, também, pelo fortalecimento do associativismo, mantendo a integração e coesão de nossas associadas. A agenda de trabalho da CBIC é ampla e vamos avançar com ela.
Quais os desafios para manter o crescimento do setor da construção em nível nacional?
Temos enfrentado desafios em diversos campos e vou apontar os mais relevantes. No campo econômico, a política monetária é um aspecto crítico para a atividade empresarial e a manutenção da taxa básica em patamares altos é, certamente, um fator de preocupação para o empresário do setor. A redução da Selic tem acontecido em uma velocidade e magnitude menores que o desejável para impulsionar a atividade da construção, especialmente do mercado imobiliário, e nossa expectativa é que continue caindo.
No campo da regulação, a implementação da reforma tributária é outro fator relevante para o nosso setor. Nossas empresas estão atravessando o período de transição, adequando processos para atender as novas regras e medindo os impactos do novo arcabouço sobre o negócio. A CBIC continua apoiando suas entidades associadas e as empresas nesse esforço, de forma que a reforma tributária gere os ganhos esperados por todos os brasileiros. Para nós, a reforma pode criar as condições para escalar a industrialização da construção brasileira e este é um efeito positivo.
Outro aspecto desafiador está na pauta trabalhista, seja pela escassez de mão de obra, pela baixa produtividade do setor ou pela discussão açodada da redução da jornada de trabalho e extinção da escala 6×1. O trabalhador é o mais importante ativo do nosso setor e temos discutido como resgatar a atratividade do setor da construção, assim como buscado mecanismos para qualificar nossa mão de obra.
Como ampliar o acesso à moradia no Brasil?
No nosso entendimento, cada vez mais é importante dispormos de instrumentos que garantam acesso à casa própria no Brasil. A moradia digna é um direito inscrito na Constituição, o déficit habitacional vem caindo, porém em um ritmo menor que o necessário para tirar da moradia precária ou do aluguel a população que ainda precisa de habitação. Para avançar nesse desafio, será importante fortalecer e ampliar, cada vez mais, políticas públicas destinadas à democratização do acesso à moradia. Nesse campo, o programa Minha Casa, Minha Vida tem um papel importante e a recente inclusão da classe média entre os beneficiários terá um feito positivo não apenas para o setor, como especialmente para a população. Além disso, medidas que ampliem o volume de recursos para produção também farão diferença, dando às empresas condições para fazer mais lançamentos.
Como o Brasil pode melhorar a competitividade da economia?
Esse é um debate estratégico para o país e a CBIC tem participado ativamente dessa pauta. A competitividade da economia brasileira exige o aumento do investimento em infraestrutura, mesmo considerando os avanços registrados nos últimos anos. Considerando as dimensões continentais do Brasil, é cada vez mais importante garantirmos os recursos necessários para manter o que já temos e avançar em uma pauta que envolve a ampliação dos diversos modais.
Em um país majoritariamente rodoviário, estabelecer um plano estratégico para combinar outros modais é importante. Falo de ferrovias e hidrovias. Essa é uma agenda antiga e o Brasil tem avançado devagar, com uma atuação muito forte da iniciativa privada. Para isso, é essencial melhorar o ambiente de negócios e dar mais segurança jurídica às empresas que atuam nesse segmento. A CBIC tem buscado sensibilizar o poder público para reverter o uso de pregão eletrônico para a contratação de obras e serviços de Engenharia, gargalo importante que impacta os projetos de infraestrutura. Essa é uma questão urgente.
A industrialização da construção é um caminho consolidado no Brasil?
Sim. O setor da construção brasileiro tem passado por uma evolução muito significativa na busca por produtividade e por novos métodos construtivos. Um grande exemplo são as construções pré-moldadas e as construções em paredes de concreto no Minha Casa, Minha Vida, que modificaram bastante a forma de construir, trazendo mais produtividade e viabilizando esse programa social tão importante. A velocidade dessa mudança, porém, é muito grande, e nossas empresas têm buscado alternativas para enfrentar a dificuldade de mão de obra, com investimentos em novas tecnologias voltadas ao aumento da produtividade.
A escassez de mão de obra qualificada preocupa o setor?
Essa é uma grande preocupação para o setor e a CBIC tem atuado em diversas frentes para endereçar respostas e apoiar as empresas. A diversificação de atividades econômicas, combinada aos benefícios oferecidos por programas sociais, reduziram a atratividade do setor e temos menos novos entrantes. As empresas da construção enfrentam dificuldade para contratar e manter tanto a mão de obra qualificada quanto a menos qualificada, embora seja o segmento da economia que oferece o mais alto salário de entrada no país. A CBIC acredita que parte importante da solução para a escassez de mão de obra passa pelo investimento em novas tecnologias. A modernização dos processos construtivos, a industrialização da construção e a incorporação de ferramentas digitais têm potencial para aumentar significativamente a produtividade do setor.
Qual legado o senhor espera deixar à frente da CBIC?
Dois temas vão permear todas as ações da CBIC no nosso mandato. O primeiro é a segurança jurídica e o ambiente de negócios. Esse entrave é um dos mais prejudiciais ao desenvolvimento do país. O setor da construção atua em um território continental, com diversas regulações e variações de entendimento jurídico, o que faz com que o desenvolvimento econômico e social gerado pelo setor permaneça muito aquém do possível. A luta histórica da CBIC por um melhor ambiente de negócios será tema recorrente, como forma de gerar mais renda e prosperidade para o país. O segundo tema é o funding. Em um país que convive com uma taxa básica de juros elevada de forma endêmica, a busca por novas formas de financiamento da construção é imperativa. Ao final do nosso mandato, espero termos contribuído para que fique cada vez mais clara para a sociedade a importância da indústria da construção para o desenvolvimento do Brasil.
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