A ampliação da participação feminina na construção civil deixou de ser uma pauta social e se tornou uma agenda estratégica para o setor. Há escassez de mão de obra, o que exige dos empregadores enfrentar o desafio da inclusão de mulheres e refletir sobre como tornar a atividade mais atraente tanto para elas quanto para os jovens. O tema foi tratado no painel “Construção com Elas: Estratégia, Escala e Futuro”, do Encontro Internacional da Indústria da Construção (ENIC) 2026, organizado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). O evento acontece até 21 de maio, no Distrito Anhembi, na cidade de São Paulo.
“Oferecer salários e benefícios não é suficiente para reter talentos. Na retenção, os líderes exercem papel determinante e precisam ser preparados para conduzir as equipes no mesmo sentido”, disse na abertura Ana Claudia Gomes, vice-presidente de Responsabilidade Social e presidente da Comissão de Responsabilidade Social (CRS) da CBIC. Ela ressaltou o trabalho que a entidade vem desenvolvendo no treinamento de lideranças femininas.
Pioneira no comando de uma entidade de classe do setor, Elissandra Cândido, presidente do Sinduscon Sul Fluminense, falou de sua experiência como empresária da construção civil, iniciada há mais de 30 anos, e sua conexão com a liderança institucional. “Em 2021, fui a primeira mulher a presidir um sindicato da CBIC. Hoje, já somos quatro mulheres liderando entidades, entre as mais de 90 existentes”, afirmou, destacando que o letramento promovido pela CBIC, qualificando executivas e secretárias, propiciou o avanço das mulheres nas diretorias.
Mesmo assim, a maioria ainda é minoria na decisão. Embora as mulheres representem 51% da população brasileira, ocupam apenas 38% dos cargos de liderança no país e 11,5% da força formal na construção civil, de acordo com dados apresentados durante o painel.
O ENIC é uma realização da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e Correalização do Sesi e Senai; conta com o Apoio Institucional da EMBRAPII; Patrocínio Oficial da CAIXA e Governo do Brasil, onde tem patrocínio CAIXA, tem Governo do Brasil; Patrocínio Institucional da CNI e IEL e do CAU/BR; Patrocínio Hub de Tecnologia da Schneider Eletric e Steck; Patrocínio Hub de Inovação do Sebrae; Patrocínio Naming room de Tecnologia da ABDI; Patrocínio Ouro da ApexBrasil, Saint-Gobain, Paggo, Brain e Kata; Patrocínio Prata da Agilean, AltoQi, Atlas Schindler, Esaf, Konstroi, Senior, Sienge, Cofer, Confea Crea – SP e da Mútua; Patrocínio Bronze da TOTVS, Zigurat, Exxata, Fastbuilt, Falconi, Sinaenco, Sinicon, além do Patrocínio Visibilidade da Trimble.
Construir com respeito é construir para todos. Racismo não tem vez!
Foto: Ruy HizatuguFormação de mão de obra
Para ampliar a presença feminina em outras funções, Elissandra destacou a efetividade do programa de qualificação de mão de obra “Elas Constroem”, iniciativa da CBIC com o SENAI, que conecta formação, encaminhamento produtivo e contratação. Atualmente operando em escala nacional, o programa registrou em 2025 a matrícula de 257 mulheres de 14 localidades de diferentes regiões do país, das quais 216 concluíram o ciclo, representando 84% do total.
Entre as concluintes, 174 foram encaminhadas para vagas disponíveis e, até o momento do evento, 48 estão contratadas. As contratações distribuíram-se pelas capitais São Luís (15), Manaus (10), Salvador (10), Aracaju (8) e Campo Grande (5).
Mais do que qualificar, “Elas Constroem” vem mudando o modo como o setor enxerga o talento. “O projeto gera uma mudança que começa na formação profissional e se estende para a ampliação da renda, a expansão da autoestima por meio do reconhecimento técnico, pelo pertencimento a uma indústria importante e a mobilização social, por inspirarem outras mulheres em suas localidades”, frisou Elissandra.
Ao final de sua fala, a presidente do Sinduscon Sul Fluminense fez um pedido aos homens presentes na audiência: “Abram o coração e coloquem a diversidade como estratégia, como tendência para o futuro. Olhem as oportunidades e abram espaço para as competências femininas. O futuro é coletivo e precisa ser diverso”.
Mediadora do painel, Ana Claudia Gomes agradeceu a presença de homens na audiência e pediu apoio à inclusão de mulheres. “O risco de haver assédio sempre existiu e é possível que aumente, mas não inviabiliza a inclusão. Precisamos primeiro mapear esses riscos e descobrir como inibi-los, por exemplo, criando um canal de denúncias, tratando o assunto de forma a não se repetir”, disse.
Mulheres no Grupo CSN
O Grupo CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), com atuação em setores estratégicos como siderurgia, mineração, logística, cimento e energia, vem conseguindo incluir mulheres com sucesso em atividades antes predominantemente masculinas. Larissa Garbelini, head de diversidade, equidade e inclusão do Grupo, falou do programa “Capacitar Mulheres”. Iniciado em 2018, o projeto é uma iniciativa voltada à formação técnica operacional nas áreas de manutenção, mecânica e elétrica, solda industrial, operação de ponte rolante, operação de siderurgia, operação ferroviária e operação de mina. O programa já formou mais de 2.500 mulheres.
No Grupo, o número de funcionárias ativas passou de 3.371 (14% do total) em 2020 para 7.691 (28%) em 2025, um crescimento robusto de 128,15% no período. Na siderurgia, a presença feminina saltou 7,5% em 2017 para 24% em 2026. Em cargos de liderança, as mulheres também apresentaram crescimento: passaram de 127 (10,80%) em 2021 para 260 (16%) em 2025.
Cerca de 600 mulheres entram por ano na CSN, afirma Larissa. O processo de inclusão começa com a contratação para técnica operacional, mas ela primeiro vai ser capacitada. Terá padrinho, madrinha e um período de seis meses em que será avaliado seu desempenho. “Sabemos que quase 52% das mulheres são chefes de família, logo não podem ficar sem salário enquanto aprendem”, observa. “Oferecemos uma carreira e não apenas uma vaga.”
Em várias atividades, o desempenho feminino surpreende. Larissa cita como exemplo dirigir caminhões enormes, tipo fora de estrada. Além dos padrões de cuidado na direção costumeiros entre as mulheres, a companhia detectou uma redução no consumo de combustível, um retorno inesperado do investimento. Assim, a companhia segue apostando na mão de obra feminina, acrescentando ao programa suporte para as lideranças, programas de empoderamento e estratégias para aumentar a eficiência operacional.
Ao encerrar o painel, Ana Claudia Gomes reafirmou os avanços obtidos na inclusão feminina na construção, ponderando que ainda há muito a ser feito, que é preciso ver o que é valor para as mulheres e os jovens, oferecer a eles uma empresa condizente com as expectativas e começar a desenvolver pessoas.
O tema tem interface com o projeto “Elas Constroem”, da Comissão de Responsabilidade Social (CRS) da CBIC, em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).
The post Mulheres na construção, uma solução estratégica para o setor appeared first on CBIC – Câmara Brasileira da Industria da Construção.
















