O engenheiro civil Vinicius Benevides é o novo vice-presidente da área de Infraestrutura da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). Com 20 anos de formação e experiência nos segmentos de infraestrutura, construção civil e saneamento, reúne atuação empresarial e institucional em diferentes frentes do setor. É diretor operacional da Dimensional Engenharia, vice-presidente do Sinduscon-RJ e da Associação de Dirigentes do Mercado Imobiliário do Rio (ADEMI-RJ), além de conselheiro da CBIC e diretor do Clube de Engenharia.
Benevides é formado em Engenharia Civil, possui MBA em Gestão de Negócios pela FGV/RJ e cursos de extensão em Incorporação Imobiliária, Engenharia Legal, ESG e Pavimentos Flexíveis. Também é profissional certificado internacionalmente em PPPs e Concessões (CP3P). Ao longo da carreira, foi responsável técnico por obras de infraestrutura e construção civil, entre elas a Arena de Handebol dos Jogos Olímpicos Rio-2016 e a implantação do Parque Madureira.
À frente da vice-presidência de Infraestrutura da CBIC e da nova gestão da COINFRA, Vinicius Benevides passa a atuar em uma agenda que envolve temas como qualidade das contratações públicas, conclusão de obras paralisadas, investimentos, concessões e parcerias público-privadas. Em entrevista ao CBIC Hoje, o dirigente detalha os principais desafios do setor e as prioridades que pretende conduzir na gestão 2026-2029.
Quais os principais desafios do setor da construção para os próximos três anos?
Vinicius Benevides: O desafio central é melhorar o ambiente de negócios para que o setor consiga contribuir efetivamente para a construção de um país forte e competitivo, com mais oportunidades e menos desigualdades.
Do ponto de vista empresarial, em termos setoriais gerais, teremos de enfrentar os efeitos da instabilidade geopolítica, do custo do capital, da implementação da reforma tributária, da escassez de mão de obra qualificada, da discussão da redução da jornada de trabalho e das oscilações imprevisíveis dos custos de produção. Ao mesmo tempo, precisaremos elevar a produtividade por meio da qualificação profissional, da industrialização, da digitalização, do BIM e da incorporação de novas tecnologias aos processos construtivos.
E quais são os principais desafios especificamente para a infraestrutura e as obras públicas?
Vinicius Benevides: Na infraestrutura e nas obras públicas, o principal desafio é estancar o enterro de novas obras no cemitério das obras inacabadas. Em paralelo, trabalhar para exumar as que ali estão. Todo o resto são causas-raiz ou consequências desse desafio principal. A obra mais cara para o país é aquela que não termina e, portanto, não cumpre sua função social.
Um diagnóstico que deve orientar a atuação da COINFRA é o Acórdão nº 1.079/2019 do Plenário do Tribunal de Contas da União, relatado pelo ministro Vital do Rêgo, que realizou ampla auditoria operacional sobre as obras financiadas com recursos da União. No universo então examinado, o Tribunal identificou 14.403 contratos paralisados, entre aproximadamente 38 mil analisados. Na amostra utilizada para investigar as causas, 47% das paralisações foram atribuídas a motivos técnicos e 23% ao abandono pelas empresas. Juntas, essas duas categorias representaram 70% dos casos examinados.
Temos enorme necessidade de infraestrutura e recursos relevantes anunciados, mas ainda falhamos em transformá-los em uma carteira contínua de projetos maduros, contratados, executados e concluídos. Para isso, a infraestrutura e as obras públicas precisam ser tratadas como política de Estado e não como programas de governo.
Diante desse cenário, quais as prioridades da Comissão nesta nova gestão?
Vinicius Benevides: As prioridades buscam responder diretamente a esses desafios. Assumo a presidência da COINFRA com respeito e admiração pelo legado do meu guru Carlos Eduardo Lima Jorge, que consolidou ao longo dos anos a Comissão como espaço de diálogo técnico e representação qualificada do setor, e com o objetivo de avançar ainda mais na defesa dos legítimos interesses do setor e da sociedade brasileira.
Como disse, a prioridade principal é estancar o enterro de novas obras no cemitério das obras inacabadas. Nesse sentido, pretendemos trabalhar pela melhoria da qualidade das contratações públicas. Isso passa por uma fase preparatória mais técnica, projetos adequados, orçamentos aderentes à realidade, critérios de qualificação compatíveis com a complexidade dos serviços, garantias que assegurem a seriedade da competição e depois a execução do contrato, matrizes de riscos equilibradas, preservação do equilíbrio econômico-financeiro, prevenção de conflitos e efetivo cumprimento das obrigações contratuais por todas as partes.
Como a Lei 14.133 pode contribuir para melhorar a contratação e a gestão das obras?
Vinicius Benevides: Outra prioridade é melhorar a contratação e a gestão das obras, com uma aplicação prática, consequencialista e equilibrada da Lei 14.133, porque a nova lei traz instrumentos excelentes. Não existe remédio universal para todas as doenças assim como não existe uma modelagem única que sirva para todas as contratações.
Nesse campo, defendemos a utilização criteriosa de um conjunto concreto de mecanismos, tais como, inversão de fases, modo de disputa fechado para obras de engenharia, a garantia de proposta prévia à fase de lances, garantias contratuais bem dimensionadas, a qualificação econômico-financeira compatível com o porte, matrizes de risco bem estruturadas e o uso criterioso da técnica e preço e das modalidades integrada e semi-integrada.
Na sua avaliação, quais obras e investimentos em infraestrutura são mais urgentes para impulsionar o desenvolvimento do país?
Vinicius Benevides: O Brasil precisa organizar uma carteira nacional de investimentos por critérios claros: retorno econômico e social, maturidade dos projetos, urgência, capacidade de financiamento e possibilidade concreta de conclusão. Mais do que eleger uma obra emblemática, é preciso fixar prioridades permanentes e evitar pulverizar recursos em projetos que não saem do papel.
Nas urgências, em termos gerais, temos o saneamento associado à segurança hídrica: água, esgoto, drenagem, resíduos e proteção de mananciais geram efeito imediato sobre saúde, produtividade e meio ambiente. Ao seu lado, é urgente investir em adaptação e resiliência climática — macrodrenagem, contenção de encostas, prevenção de enchentes e sistemas de alerta —, trocando a cultura de gastar depois da tragédia por uma política permanente de prevenção.
A mobilidade urbana é urgência econômica e social. Ela não se resume ao tempo dentro do ônibus ou do trem, mas à jornada integral do cidadão entre sair de casa e voltar para a família. A melhor medida de eficiência de uma obra de mobilidade é o tempo de vida que ela devolve às pessoas: reduzir uma hora de deslocamento é mais convivência, descanso, estudo e saúde — e mais produtividade para o país.
Na logística, é preciso conservar e modernizar rodovias, ampliar ferrovias e aperfeiçoar portos, hidrovias e aeroportos, sem disputa entre modais: cada um deve operar segundo sua vocação, de forma integrada, reduzindo o custo do transporte e ampliando a competitividade da produção. São essenciais, ainda, os investimentos em geração e transmissão de energia e em infraestrutura digital — base da nova economia, da indústria, da agricultura de precisão e da inteligência artificial.
De que forma uma infraestrutura mais eficiente contribui para o crescimento da construção e da economia?
Vinicius Benevides: A infraestrutura não é um fim em si mesma, é o instrumento material por meio do qual as políticas públicas se realizam e a economia competitiva se torna possível. Uma estrada existe para transportar pessoas e mercadorias; uma rede de saneamento, para proteger a saúde e o meio ambiente; uma escola ou um hospital, para ampliar oportunidades e cuidar das pessoas. Infraestrutura eficiente reduz o Custo Brasil, diminui perdas logísticas, encurta distâncias econômicas e eleva a produtividade de praticamente todos os setores.
Para a construção, o impacto tem duas dimensões. A direta: a obra movimenta engenharia, materiais, equipamentos, projetistas e milhares de fornecedores — a construção já emprega formalmente mais de três milhões de pessoas. Por isso tem forte função anticíclica e gera emprego com rapidez, sobretudo na base da pirâmide social.
A dimensão indireta é ainda mais ampla: onde chegam saneamento, energia, mobilidade e conectividade, surgem novos empreendimentos imobiliários, indústrias, comércio e serviços. A infraestrutura viabiliza o crescimento sustentável, melhora a qualidade de vida das pessoas e diminui o Custo Brasil.
Como a Comissão pretende apoiar as empresas da construção diante desses desafios?
Vinicius Benevides: Com representação, informação e formação. O primeiro compromisso da COINFRA é ouvir as entidades associadas da CBIC. A Comissão precisa funcionar como uma antena nacional, conectada às entidades e às empresas de todas as regiões, porque muitas vezes um problema local revela uma distorção regulatória, orçamentária ou contratual que afeta todo o setor.
Nosso papel é transformar essa experiência da ponta em diagnósticos técnicos e propostas institucionais, porque não se faz boa política de contratação pública sem ouvir quem executa e entrega as obras, quem sofre na pele.
Vamos ampliar a produção e a disseminação de conhecimento prático — planejamento, licitações, garantias, engenharia de custos, BDI, matrizes de risco, reequilíbrios, concessões, PPPs e solução de conflitos —, chegando não só às grandes empresas, mas especialmente às pequenas e médias, que têm capilaridade regional e geram emprego local.
A inteligência de mercado que a Comissão está estruturando também servirá diretamente às empresas: integrar dados sobre investimentos previstos, projetos, concessões, licitações, custos e execução ajudará empresas de todos os portes a planejar, dimensionar equipes e identificar oportunidades com menos incerteza, migrando de uma atuação reativa para uma atuação proativa, orientada por dados.
A COINFRA não atuará em defesa de privilégios, de reserva de mercado ou de empresas ineficientes, e sim de um mercado com regras claras, concorrência responsável, projetos adequados, preços realistas, pagamentos em dia e contratos respeitados por ambas as partes.
Porque a defesa da empresa séria coincide com a defesa do interesse público: são as empresas qualificadas e comprometidas que transformam projetos, contratos e recursos em política pública efetivamente entregue à população.
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