Maria Inês Menegotto assume Comissão de Responsabilidade Social da CBIC com foco em qualificação, inclusão e fortalecimento do setor

Fortalecer a cultura da responsabilidade social nas empresas, qualificar a mão de obra e ampliar a inclusão de mulheres na construção estão entre as prioridades da arquiteta, urbanista e empresária Maria Inês Menegotto de Campos, que assume a vice-presidência de Responsabilidade Social da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) na gestão 2026–2029. À frente da Comissão de Responsabilidade Social (CRS), ela será responsável por coordenar iniciativas importantes como o Elas Constroem, o CBIC Jovem e o Dia Nacional da Construção Social (DNCS).

Primeira mulher eleita presidente do Sinduscon Caxias em 50 anos de história da entidade, Maria Inês construiu uma longa trajetória no associativismo. Atualmente, ela representa a Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do Sul no Conselho Municipal de Habitação e preside o Conselho de Administração da Fundação Gaúcha dos Bancos Sociais e o Conselho de Cidadania da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (FIERGS).

Na CBIC, Maria Inêz manterá a representação feminina na alta gestão, reforçando o compromisso da entidade nacional com o reconhecimento da importância da mulher e sua contribuição para o mundo do trabalho. Ela será a terceira mulher a liderar a área de Responsabilidade Social da CBIC, sucedendo pioneiras como Maria Helena Mauad – que comandou o então Fórum de Ação Social e Cidadania (FASC) de 2005 a 2014 – e Ana Cláudia Gomes – que a sucedeu e conduziu a transição e consolidação da CRS.

Em entrevista ao CBIC Hoje, a vice-presidente de responsabilidade social da CBIC fala sobre os desafios da construção, a modernização do setor, a ampliação da participação feminina e as prioridades da comissão nesta nova gestão.

Quais os principais desafios do setor da construção para os próximos três anos?

Maria Inês: Temos grandes desafios. O primeiro é a insegurança jurídica, seja no âmbito federal, estadual ou municipal. O ciclo de produção da construção é bastante longo e pode durar de dois até cinco, seis ou sete anos, dependendo do empreendimento, como acontece em obras de loteamento.

Se considerarmos todo o processo de legalização, aprovação de projetos e licenças, além da construção e da comercialização, veremos que o orçamento e os desembolsos são planejados desde o início. Qualquer alteração de leis ou normas durante esse período pode desencadear sérios problemas econômicos para as empresas.

Outro grande desafio são as altas taxas de juros. Tanto quem compra quanto quem constrói enfrenta um cenário de insegurança. Enquanto os financiamentos estão caros, as aplicações financeiras acabam sendo mais atrativas. Isso dificulta o acesso ao crédito justamente para quem precisa financiar um imóvel.

Também nos preocupa o uso do FGTS como complemento de renda. O Fundo é um importante funding para o Minha Casa, Minha Vida e para obras de infraestrutura, contribuindo diretamente para a qualidade de vida da população.

Além disso, enfrentamos a escassez de mão de obra. Muitos trabalhadores estão migrando para a informalidade, não apenas na construção, mas em diversos setores da economia.

A senhora tem uma longa trajetória no associativismo e na representação empresarial. Como esse caminho a levou até a presidência da Comissão de Responsabilidade Social da CBIC?

MI: Nós pertencemos aqui ao Sinduscon, coordenado pelo engenheiro Marcos Mauro, da região Sul, e sempre participamos ativamente de muitas campanhas e trabalhos. Há cerca de um ano e meio, assumi como diretora da FIERGS e também recebi a incumbência da presidência de assumir a Fundação Gaúcha dos Bancos Sociais.

Aqui no Rio Grande do Sul temos uma tradição muito forte. Hoje, todos os Sinduscons estão ligados à FIERGS e participam ativamente da entidade. São 11 Sinduscons integrando a diretoria. Essa aproximação foi importante porque, historicamente, a construção civil não era vista como uma indústria convencional. Essa sempre foi uma bandeira que defendemos e conseguimos fortalecer ao ampliar a participação dos Sinduscons na Federação, mostrando a relevância da construção para a indústria e para o desenvolvimento nacional.

A atuação na presidência da Fundação Gaúcha dos Bancos Sociais e também no Conselho da Cidadania da FIERGS ampliou essa representatividade e contribuiu para que eu assumisse a vice-presidência da Comissão de Responsabilidade Social da CBIC.

Conversando com o presidente Eduardo Aroeira, percebemos que havia o desejo de integrar ainda mais a construção civil às discussões da responsabilidade social, unindo a visão da indústria, do empresariado e das demandas sociais. É justamente essa conexão que pretendemos fortalecer ao longo da gestão.

Como ampliar a cultura da responsabilidade social entre as empresas da construção?

Sabemos que, hoje, principalmente para os pequenos e médios empresários, que representam a maior parte dos associados dos Sinduscons, da CBIC e também das federações, a principal preocupação é manter seus negócios sustentáveis.

As grandes empresas já possuem políticas de responsabilidade social mais estruturadas, tanto pela capacidade econômica quanto pela organização institucional. Nosso desafio é fazer com que essa cultura também chegue às pequenas e médias empresas. E isso começa pela liderança. Não adianta que a iniciativa fique apenas na base da empresa. É fundamental que a diretoria compreenda a importância da responsabilidade social como parte da estratégia do negócio.

É esse entendimento que queremos fortalecer durante a gestão. A responsabilidade social também passa por aproximar as empresas das comunidades onde estão inseridas, ajudando a desenvolver a mão de obra local e promovendo oportunidades de trabalho formal.

Precisamos enxergar cada canteiro de obras como uma indústria, ainda que com características próprias. Quando a empresa entende esse papel e incorpora a responsabilidade social ao seu dia a dia, ela contribui não apenas para o desenvolvimento do setor, mas também para a transformação das comunidades onde atua.

Diante desse cenário, quais serão as prioridades da Comissão de Responsabilidade Social?

MI: Precisamos aproveitar melhor o potencial humano que existe na sociedade e, ao mesmo tempo, criar condições para reter esses profissionais no mercado. Nossa proposta é ampliar as parcerias com entidades formadoras, como SESI e SENAI, mas também alcançar públicos que hoje estão distantes da construção. Temos uma população muito grande nas periferias, atendida por entidades sociais e bancos sociais, que muitas vezes não sabe como ingressar no mercado formal de trabalho.

Queremos aproximar essas pessoas da construção por meio da qualificação profissional e ajudá-las a retornar à formalidade. Não estamos falando apenas de jovens aprendizes, mas também de adultos que podem encontrar na construção uma oportunidade de crescimento.

A retenção desses profissionais passa pela melhoria das empresas, pelos benefícios oferecidos e por ambientes de trabalho mais organizados. A própria reforma tributária nos empurra para um processo de industrialização que pode contribuir para estabilizar o setor.

A construção precisa se modernizar cada vez mais. Máquinas, robótica, programação e industrialização tornarão a atividade mais organizada, limpa e produtiva. É esse ambiente que atrairá novos trabalhadores.

Hoje ainda enfrentamos um déficit habitacional de aproximadamente sete milhões de moradias. Precisamos desses profissionais e temos condições de atraí-los à medida que modernizarmos nossa indústria.

Assim como aconteceu em outros segmentos industriais, a construção também precisa evoluir. Hoje muitas fábricas são exemplos de organização, tecnologia e limpeza. Precisamos levar essa realidade para os canteiros de obras, investindo em planejamento, inovação e qualificação profissional.

O programa Elas Constroem é uma das principais iniciativas da CBIC. Como a senhora avalia a participação das mulheres no setor?

MI: O Elas Constroem é um verdadeiro caso de sucesso. É um programa que incentiva as mulheres a ingressarem em um setor que, durante muito tempo, foi predominantemente masculino.

Temos muitas atividades dentro da construção que podem ser desempenhadas por mulheres, independentemente da força física. Instalações elétricas, instalações hidráulicas, acabamentos e diversas outras funções exigem atenção, cuidado e qualificação.

Sabemos que metade da população brasileira é formada por mulheres. O programa ajuda a ampliar a participação delas no mercado formal de trabalho, fortalece sua independência financeira e apoia muitas que já são chefes de família.

Como o Elas Constroem é voltado principalmente para mulheres de baixa renda, ele também promove cidadania e inclusão social. Precisamos fortalecer cada vez mais essa iniciativa, porque ela amplia oportunidades para as mulheres e contribui para transformar o setor.

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