Artigo: Manifesto Empresarial por mais uma hora de vida ao trabalhador brasileiro

Vinicius Benevides, conselheiro da Câmara Brasileira da Indústria da Construção e  vice-Presidente do Sinduscon-RIO 

O Brasil discute a redução da jornada de trabalho como uma conquista social. Esse argumento é de difícil discordância. Devolver tempo ao trabalhador é uma causa legítima, um objetivo civilizatório, uma pauta que dialoga com qualidade de vida, saúde e dignidade. Mas há uma premissa equivocada nesse debate que precisa ser enfrentada com honestidade intelectual antes de qualquer mudança estrutural: a jornada de trabalho não começa quando o trabalhador bate o ponto. Ela começa quando ele fecha a porta de casa. E só termina quando volta para ela. A jornada real do trabalhador brasileiro não é a jornada contratual; é a soma do tempo de trabalho com o tempo de deslocamento — um tempo que não é remunerado, não é descanso e não é vida.

Dados do IBGE no CENSO 20221 mostram que o trabalhador brasileiro perde muitas horas semanais apenas em deslocamento. Nas principais capitais brasileiras, mais da metade da população ocupada já leva mais de trinta minutos apenas no trajeto de ida ao trabalho: no Rio de Janeiro, 59,6%; em São Paulo, 59,5%; em Manaus, 54,7%; em Salvador, 53,2%; em Recife, 51,4%; em Belo Horizonte, 51,2%; em Brasília, 50,9%. E cruzar a linha dos trinta minutos é apenas o início do problema. Dentro desse grupo, há uma concentração expressiva em faixas mais críticas, com milhões de trabalhadores enfrentando trajetos entre uma e duas horas, e uma parcela relevante ultrapassando duas horas apenas na ida. Na prática, isso significa jornadas ampliadas em duas, três ou até quatro horas por dia — todos os dias.

No Rio e em São Paulo, aproximadamente 30% dos trabalhadores perdem mais de uma hora para chegar no trabalho. São, na média, 3 horas de vida perdidas por dia no deslocamento.

Esse não é um problema marginal. Essas cidades concentram dezenas de milhões de pessoas e representam o núcleo produtivo – e do emprego formal – do país. Considerando apenas algumas dessas capitais, chega-se a cerca de trinta milhões de habitantes, e de estimados 14 milhões de empregos formais. Se, de forma conservadora, metade desses trabalhadores perdem em média duas horas por dia em deslocamento, estamos falando de 14 milhões de horas perdidas por dia, 70 milhões por semana e algo próximo de 3,5 bilhões de horas por ano. Esse é o verdadeiro custo invisível da forma como organizamos nossas cidades.

É nesse ponto que o debate precisa mudar de eixo. A discussão sobre a redução da jornada de trabalho, no cerne, é uma discussão sobre tempo. E, portanto, é uma discussão sobre escolha. O país precisa decidir se quer aumentar o tempo de qualidade de vida do trabalhador suprimindo uma hora de trabalho produtivo — com todos os custos econômicos que isso implica — ou se quer gerar esse mesmo ganho de tempo reduzindo o tempo de deslocamento, isto é, eliminando uma hora que hoje é totalmente improdutiva, capturada pela ineficiência da mobilidade urbana.

A diferença entre essas duas escolhas é profunda. A primeira vai ter um impacto no chamado custo Brasil e inflacionará a economia, afetando os próprios trabalhadores teoricamente beneficiados e toda a população. A segunda, reduzir o tempo de deslocamento, só traz benefícios, incluindo a geração de empregos para fazer isso.

Os estudos existentes deixam claro que a redução da jornada não é neutra. Ela implica aumento do custo Brasil, podendo gerar impactos econômicos relevantes, que, em alguns cenários, alcançam centenas de bilhões de reais por ano. Pensando no consequencialismo das decisões, não basta que a política pública seja bem-intencionada; ela precisa ser eficiente, proporcional e racional na alocação de recursos escassos.

Mas há um aspecto ainda mais sensível — e frequentemente ignorado — nesse debate: a desigualdade estrutural embutida na mobilidade urbana brasileira. O tempo de deslocamento não é distribuído de forma homogênea. Ele é profundamente desigual. Nas grandes cidades, a pobreza é centrifugada para as periferias. Quanto menor a renda, maior a distância entre a moradia e os centros de emprego, maior a dependência de sistemas de transporte público precários e maior o tempo gasto no deslocamento diário. O trabalhador de menor renda não apenas ganha menos; ele também vive menos tempo útil para si e para sua família.

Por outro lado, quem tem maior renda consegue morar mais perto do trabalho ou em regiões com melhor infraestrutura de mobilidade. E isso não é por acaso: proximidade custa caro. O acesso ao tempo é, também, uma questão econômica. Nesse contexto, a redução da jornada de trabalho tende, em grande medida, a beneficiar proporcionalmente mais aqueles que já estão em melhor situação — porque são justamente esses que conseguem converter essa hora liberada em tempo de qualidade. Já os trabalhadores mais vulneráveis continuam presos a longos deslocamentos, muitas vezes sem conseguir usufruir plenamente desse ganho formal. Até mesmo porque as horas em deslocamento são perversas. O trabalhador já chega mais estressado e exaurido no trabalho e em casa.

É por isso que inverter a lógica de alocação de recursos não é apenas uma questão de eficiência. É uma questão de justiça social. Investir os mesmos bilhões necessários para viabilizar a redução da jornada em infraestrutura de transporte e em políticas de habitação que aproximem moradia e emprego teria um efeito muito mais profundo e mais justo. Reduzir o tempo de deslocamento beneficia diretamente quem mais precisa: o trabalhador que sai de casa antes do amanhecer, que enfrenta múltiplas integrações, que passa horas em pé em transporte público lotado, que chega em casa já sem tempo ou energia para viver.

Além disso, esse tipo de investimento tem um efeito sistêmico. Não beneficia apenas o trabalhador formal, mas toda a população urbana: estudantes, autônomos, desempregados, idosos. Melhora o acesso a oportunidades, aumenta a produtividade, reduz custos logísticos, melhora a saúde pública e a qualidade de vida de forma generalizada. Até diminui as emissões de gases de efeito estufa! Diferentemente da redução da jornada, cujo efeito é restrito ao universo formal do trabalho, a mobilidade urbana eficiente atua sobre a cidade como um todo — todos os dias, para todos.

Este é um manifesto a favor do ganho de tempo real do trabalhador, mas, beneficiando toda a população brasileira. É um chamado para que o país enfrente a questão com profundidade e responsabilidade. Se o objetivo é devolver tempo ao cidadão, é preciso atuar onde esse tempo está sendo efetivamente PERDIDO. Para o trabalhador, para as empresas e para a sociedade. E hoje, no Brasil, ele está sendo PERDIDO no trajeto entre a casa e o trabalho.

A escolha que se coloca não é ideológica. É objetiva. Podemos reduzir uma hora de trabalho produtivo com uma canetada ou podemos devolver uma hora de vida do trabalhador na prática com a alocação de recursos eficiente, com um projeto de país.

Precisamos, portanto, racionalizar a discussão e focar em dois objetivos: melhorar a qualidade de vida de nossos trabalhadores e diminuir o custo Brasil. Investir imediatamente e maciçamente em mobilidade urbana e em moradias sociais nos grandes centros não torna os objetivos mutuamente excludentes. A redução de jornada produtiva sim.

The post Artigo: Manifesto Empresarial por mais uma hora de vida ao trabalhador brasileiro appeared first on CBIC – Câmara Brasileira da Industria da Construção.

Compartilhe