Rejeitar o adensamento significa optar pela expansão periférica, uma escolha ambientalmente predatória e socialmente injusta
O debate sobre as cidades brasileiras precisa urgentemente de lucidez. A maior parte dos problemas urbanos atuais é consequência direta de decisões mal planejadas – ou da completa ausência de políticas públicas – ao longo de décadas. Quando o Brasil mecanizou sua agricultura, milhões de trabalhadores migraram para áreas urbanas sem que houvesse qualquer preparo para recebê-los. Faltaram planejamento, moradia digna e oportunidades de trabalho. Como resultado desse vazio institucional, surgiram favelas, ocupações irregulares e um espraiamento urbano que hoje caracteriza nossas metrópoles. Não por acaso, 16% da população brasileira vive em favelas.
A situação se agravou quando, entre a extinção do Banco Nacional da Habitação (BNH) em 1986 e a criação do Minha Casa Minha Vida em 2009, o País ficou 23 anos sem política habitacional estruturada. Nesse longo período, famílias inteiras permaneceram invisíveis ao Estado, lembradas apenas em períodos eleitorais.
Esse ambiente de abandono institucional produziu uma distorção importante: a estigmatização do empreendedor imobiliário. O setor passou a ser visto como inimigo da cidade e do meio ambiente, o que contaminou a opinião pública, travou avanços técnicos e atrasou as mudanças que o País precisava implementar. O debate urbano se empobreceu, substituído por narrativas simplistas e desconectadas da realidade.
Uma das consequências mais graves desse equívoco foi transformar o adensamento urbano em tabu, quando ele deveria ser prioridade. Construir onde já existe infraestrutura é racional, sustentável e socialmente eficiente. Rejeitar o adensamento significa optar pela expansão periférica, uma escolha ambientalmente predatória e socialmente injusta. Entre 2010 e 2022, as 25 maiores cidades do País perderam 3 milhões de moradores nos centros, mas continuaram ampliando seu perímetro urbano. Cada rua aberta na borda da cidade gera custos permanentes em pavimentação, drenagem, iluminação, escolas e saúde – uma conta que nunca fecha.
No centro desse debate está um princípio simples, sintetizado por Jaime Lerner: “A melhor mobilidade é não precisar se deslocar.” Quando moradia, trabalho e serviços estão próximos, a cidade funciona. Quando estão distantes, nenhum sistema de transporte suporta a demanda. São Paulo ilustra essa distorção: no centro, há 20 empregos por morador; no entorno, apenas 0,5. As pessoas se deslocam não por escolha, mas porque a cidade foi desenhada para isso – e paga caro pela irracionalidade.
Há ainda a dimensão fiscal, frequentemente ignorada. Em regiões metropolitanas, quem trabalha na capital e mora no município vizinho utiliza a infraestrutura da cidade sede, mas o repasse do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) vai para onde está registrado seu domicílio. A cidade central presta o serviço, mas não recebe a receita. Reter população, regularizar ocupações e reocupar áreas consolidadas é, portanto, uma estratégia de sobrevivência financeira para os municípios – e não apenas uma pauta urbanística. Programas de regularização fundiária, ampliação de habitação, verticalização e adensamento deixam de ser alternativas ideológicas e passam a ser imperativos econômicos.
Belém é um exemplo emblemático desse descompasso entre urbanismo e realidade econômica. Uma cidade com vocação para serviços e bioeconomia vive sob um plano diretor restritivo e desconectado de sua dinâmica social. O resultado é alarmante: 75% do território é irregular e 57% da população vive em favelas. O mercado imobiliário de Habitação de Interesse Social ocupa apenas a 32.ª posição no País, evidenciando sua baixa capacidade de absorver demanda. No entanto, o mercado de alta renda ocupa a 16.ª posição, fruto de um plano diretor desumano. Quando o preço da terra é incompatível com a renda da população, restam apenas duas alternativas: morar longe ou invadir.
Nesse contexto, verticalizar não é uma agressão à cidade – é um ato de humanização urbana. O adensamento qualificado permite liberar áreas verdes, criar espaços de contenção de chuvas, reduzir a expansão horizontal, diminuir os custos de infraestrutura e aproximar as pessoas de serviços essenciais. Cidades espraiadas são caras, poluentes e desiguais; cidades compactas são eficientes, inclusivas e sustentáveis.
No entanto, mudar a lógica urbana brasileira exige algo além de dados técnicos: exige mudar a narrativa. É preciso explicar à sociedade que adensar reduz desigualdades, que verticalizar preserva a natureza, que reocupar o centro é mais inteligente do que expandir para áreas frágeis, que habitação social é política econômica e fiscal, e que terra acessível é um direito básico de qualquer cidadão.
O maior desafio urbano do País hoje é narrativo, não técnico. É necessário convencer o Brasil de que a cidade compacta é superior à dispersa; de que o centro é solução, não problema; de que planejamento não é gasto, é investimento; de que regularizar é incluir; e de que proximidade é o melhor e mais eficiente transporte urbano.
Nenhuma cidade sobrevive virando as costas para sua vocação, sua população e seu território. Reocupar os centros urbanos não é uma nostalgia urbanística – é um projeto de dignidade, racionalidade e futuro.
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