Construção deve estar comprometida com a formação de cidades resilientes, diz CBIC

Entre 2001 e 2018, 74% de todos os desastres naturais no mundo foram relacionados à água, segundo relatório da Organização das Nações Unidas lançado em 2020. No Brasil, esse tipo de tragédia vem aumentando e exigindo iniciativas do poder público, das instituições e da iniciativa privada. Prova da urgência sobre o tema foi o ciclone extratropical no estado do Rio Grande do Sul no último mês de setembro. Chuvas intensas e inundações atingiram mais de 100 municípios da região e milhares de pessoas, acumulando perdas materiais e humanas.

Considerada uma das maiores tragédia naturais dos últimos anos no Brasil, o evento acende um alerta para a urgência de iniciativas que minimizem os danos urbanos ocasionados por eventos climáticos extremos, mais frequentes no país a cada ano, visando a redução do impacto de desastres ambientais.

De acordo com o vice-presidente da área de meio ambiente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Nilson Sarti, o setor da construção tem grande responsabilidade no desenvolvimento das cidades e deve adotar infraestruturas mais resilientes e adaptadas para a gestão integrada de água e minimizar os efeitos de desastres naturais.

“O setor está mais atento e comprometido em cumprir a sua vocação de realizar obras e empreendimentos, mas também estamos alertas a temas como mudanças climáticas e cidades resilientes, descarbonização do setor e em adotar novas tecnologias alinhada às diretrizes ambientais. A indústria da construção está em um novo momento, mais consciente de seu impacto nas cidades, buscando aliar desenvolvimento urbano com responsabilidade sustentável”, contou.

Cidades resilientes

Relatório Mundial das Cidades publicado pela ONU-Habitat, em 2022, apontou que a população global deve ser 68% urbana até 2050, aumentando em 2,2 bilhões o número de pessoas vivendo em cidades. De acordo com o relatório, atualmente cerca de 56% da população mundial é urbana.

Nilson Sarti destacou que as cidades não estão preparadas para o aumento populacional dos últimos anos, intensificando o desenvolvimento urbano desordenado em locais que já possuem estresse hídrico. “Os impactos ocasionados pela ocupação populacional em meios urbanos, com a ocupação desordenada do solo e a disponibilidade hídrica limitada levam a quadros de estresse hídrico crônico, resultando em racionamento, degradação dos rios e inundações. A consequência desse processo são os efeitos das alterações climáticas. São provas da importância de se mudar a mentalidade e buscar soluções para acelerar a corrida para o impacto zero e de uma agenda do clima nas cidades”, reforçou.

Segundo o Banco Mundial, as cidades são responsáveis por mais de 70% das emissões de gases de efeito estufa e representam dois terços do consumo global de energia, fatores que provocam eventos climáticos extremos e ressaltam a necessidade de construir cidades inclusivas e resilientes ao clima.

Na tentativa de contribuir com o tema, nos últimos 10 anos a IFC já investiu e mobilizou mais de US$ 9.2 bilhões em 76 iniciativas climáticas, acelerando a transição para um mundo de baixo carbono.

Vem crescendo no mundo o conceito de “cidades esponjosas”, em que a infraestrutura das cidades deve ser feita de forma a absorver a água da superfície e em sintonia com a natureza, em vez de depender apenas de tubulações e bombas. Estas soluções apresentam uma nova visão para a gestão hídrica e de edificações dentro do conceito denominado Net Zero Water.

As diretrizes Net Zero visam ações de resiliência sistêmica, envolvendo os diversos atores que influenciam na formação e na rotina das cidades. Vão desde soluções aparentemente simples, como plantar árvores nas ruas, usar soluções de drenagem urbana sustentável, até diversificação da matriz hídrica por meio do reúso planejado na bacia.

De acordo com a CBIC, o envolvimento do poder público também é importante, com a criação de um arcabouço técnico e legal sobre o tema e com o incentivo de programas de eficiência hídrica que visem redução do desperdício e o compromisso de toda a sociedade. “Outro importante papel do poder público é o investimento em infraestrutura de saneamento ambiental adequada. O Brasil ainda carece de tratamento de esgoto e o impacto nas cidades e na alteração climática é enorme”, disse Sarti.

Os chamados edifícios vedes também são grandes aliados nesse processo voltado para a resiliência das cidades. Essas construções incluem implantação de tecnologias que consomem menos água, redução de perdas do sistema hidráulico, implementação de infraestrutura verde para neutralizar o impacto da drenagem urbana, controle de perdas e economizadores.

Parceira da CBIC, a IFC desenvolveu a Certificação EDGE, que credencia edifícios ecoeficientes. Além do sistema de certificação, o EDGE inclui um software que permite às equipes de projeto e aos incorporadores/construtores avaliarem as melhores medidas de eficiência de recursos na construção. De acordo com a IFC, o EDGE torna mais fácil projetar e certificar edifícios de todas as tipologias construtivas, tornando-os eficientes em termos de recursos naturais e com redução das emissão emissões de carbono.

“O setor da construção está cada vez mais preocupado com ações voltados para eficiência energética, gestão da água, descarbonização, construções mais modernas e sustentáveis. Sabemos que o setor tem muito a avançar e esse é um norte do planejamento estratégico da CBIC. A construção brasileira está se alinhando cada vez mais às ações e acordos mundiais de clima, sustentabilidade, de olhar para a comunidade. Temos o compromisso de reduzir o impacto ambiental e promover uma melhor qualidade de vida para as famílias”, concluiu Sarti.

O tema tem interface com o projeto “Cenários e Transição para uma Economia da Indústria da Construção de Baixo Carbono”, da Comissão de Meio Ambiente (CMA) da CBIC, em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai Nacional).

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